Pés, para que os quero, se tenho asas para voar?

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Como todas as manhãs de uma terçã-feira, fiz minha aula de natação e lembro de estar feliz pois faltava pouco para ir trabalhar na competição de azeites em Nova Iorque. Porém, infelizmente, em pouco minutos, eu cometi uma falha, e quebrei meu pé direito. A fratura foi grave, e para poder colocar no lugar os três ossos quebrados, tive que fazer cirurgia, colocar duas placas, dois pinos e enxerto ósseo.Em poucas horas, eu estava no hospital assustada com tudo que poderia acontecer dali para frente. E em apenas 24 horas, eu estava de cadeira de rodas.

Quando o medico me informou que ficaria 30 dias sem poder andar meu mundo caiu e chorei por 5 minutos copiosamente. Nada daquilo fazia sentido. Foi difícil entender o por que eu estava vivendo aquilo, de uma maneira tão dolorosa para mim, para meus familiares e para minha carreira profissional. A dor da minha alma era tão grande quanto a  física, e era imensa, meu pé doía em todos os momentos e a solução era ficar todo tempo deitada. Para comer, ir ao banheiro ou tomar banho, contei com a ajuda da minha mãe e da minha filha.

Os dias pareciam uma eternidade, mas era preciso seguir adiante e após decidir assumir meus compromissos profissionais mesmo sem andar, foquei nos meus objetivos e comecei a aprender então andar sozinha de muletas e cadeira de rodas. Lembro de chorar muito durante a noite e durante o dia. Me culpava por estar naquele desequilíbrio e não entendia que cada um dá o que tem e que tirar leite de pedra ainda não existe receita. Parecia que Deus tinha me mandado uma cartilha de aprendizados na qual eu tinha que aprender muito rápido para conseguir seguir em frente, não sabia o que iria encontrar mas sabia que tinha que seguir.

Colete salva vidas

E nesse caso, entra a inteligência emocional que se constrói ao longo da vida. Desde pequena meus pais me ensinaram valores e princípios poderosos que se instalaram dentro da minha alma e das minhas crenças. Minha educação escolar sempre foi focada em me preparar para a vida e ir muito além das notas das provas, todo o conhecimento espiritual que busco nesses anos todos habitam em meu coração mesmo que as vezes eu não tenha acesso. E acredito que nesses momentos, no qual nada faz sentido, todos esses pontos se unem e acionam um colete salva-vidas que te protege de não se afogar nas dores profundas da vida. Eu não fazia ideia do o que e quem me segurava naqueles dias o que sei é que saiu de dentro de mim, foi meu amor-próprio, meu colete-salva vidas foi acionado. E a cada dia, uma luz ascendia dentro de mim.

Lições de vida

Lembro-me de ter vergonha. Sentia vergonha de estar em uma situação tão fragilizada e vulnerável. Sou uma pessoa que tem por característica ser resistente e independente.Porém para mim, estar tão dependente era algo humilhante, até o dia que entendi que tudo aquilo era uma oportunidade, depois de ter saído da casa da minha mãe com 18 anos, não tínhamos ficado tanto tempo próximas e ainda mais em um momento de adversidade.E através do amor dela, das palavras motivadoras, da sua comidinha e do seu cha..e tantas coisas que ela fez por mim e pela minha filha, significou muito.

No dia do evento da Coca-cola, eu acordei decida a cancelar. Não tinha vontade de sair de casa e então minha amiga Dani me ligou e disse : ” Voce vai sim! Hoje você vai representar as mulheres cadeirantes que não desistem dos seus sonhos”. Enxuguei as lagrimas e fui. As dificuldades que enfrentei para chegar ao local do evento foram assustadoras! Andar na cadeira de rodas pela calçada toda cheia de buraco, e em seguida, o caminho que eu andaria com pés em 5 min, sendo carregada virou 15 min e por dentro senti muitas emoções ruins. Senti medo, vergonha, angustia. No começo estava sem graça, mas a equipe me acolheu e me fez sentir uma vitoriosa. Agarrei aos valores que meu pai sempre me ensinou sobre trabalho e honrei minha missão. E lá estava eu, no Food Truck da Coca Cola, servindo uma receita que eu adoro, com azeite extra virgem em prol da Gastronomotiva.

Nesse mesmo dia, embarquei para NY. E eu tão acostumada com os procedimentos de aeroporto, tive que ter muita paciência, e até chegar na aeronave foi um processo complicado. E com certeza, um dos piores voos da minha vida. A dor que senti por conta da compressão de ar, da temperatura e do tempo na mesma posição, não me deixaram dormir por um minuto. Ao chegar no hotel, pedi para minha mãe me ajudar a entrar sem que ninguém me visse pois todos meus amigos por lá. E, o destino me surpreendeu novamente e graciosamente. Ao contrario do meu plano, encontrei TODOS os meus amigos, e sem pensar duas vezes se levantaram e ganhei 20 abraços calorosos de ternura e amor.Aquilo virou uma chave dentro de mim. Percebi então que se mostrar fragilizada não é embaraçoso e sim libertador! A partir dali encontrei o perdão dentro de mim e me libertei da culpa e vergonha. Até consegui me divertir de cadeira de rodas e muletas.E cada dia de trabalho, pensava  “por hoje consegui”. E foi árduo! Meu pé doía demais, ficava roxo, inchado e no final da jornada só queria meu quarto para descansar. O maior desafio foi cozinhar para a Premiação, com apenas 20 dias apoios uma cirurgia, estava lá eu cozinhando para mais de 200 pessoas. E foi lindo ver o resultado.Infelizmente faltando pouco para acabar meus dias por lá, eu cai na rua, e os pontos do meu pé se abriram causando uma pequena infecção que até hoje estou tratando, alem de provavelmente ter artrose.Voltei para o Brasil sozinha, e contei com a ajuda do proximo. Sim, do proximo desconhecido, do primeiro que podia me ajudar a me levantar, segurar minha mala, me levar ao banheiro e assim, entre sorriso e apertos de mãos  voltei para minha casa, e logo no dia seguinte fui liberada a andar.

Cicatriz

Achei uma lenda sobre os vasos japoneses super valiosos, com frisos de ouro colando as peças lascadas ou quebradas, acredita-se que isso as tornam mais especial. No dia que li sobre isso percebi que as cicatrizes contam a minha historia e que eu escolho como olhar para elas. E hoje sou capaz de agradecer esse incidente pois as vezes as coisas tristes acontecem para mostrar o tão quanto estruturado estamos para suportar situações inerentes a vontade própria. Eu nunca tinha pensado em quebrar o pé na minha vida e meu maior medo era me parecer vitima. Quis provar para eu mesma que seria possível superar, e ainda estou nesse processo. Quase não alcancei nenhuma meta esse semestre, claro que nunca imaginei que existira esse intervalo de 3 meses d (ainda tem mais 3 meses) da recuperação mas foi outra forma que o Universo me ensinou a ter calma. Alguns projetos consegui concluir a grandes custos e quando me pergunto se seria melhor ter ficado em casa e me recuperado de vez ao invés de viajar e trabalhar no período de pos cirurgia eu sei que seria mas parar nunca é uma opção.

Algumas pessoas também me perguntaram porque não tinha contado na época do ocorrido, porque eu continuei postando nas redes sociais como se nada tivesse acontecido..e não tenho essas respostas pois naquele momento não havia nada para compartilhar, para pedir, para dizer. Era uma vivência pessoal intensa e complicada então eu não disse nada a ninguém, escrevo abertamente pela primeira vez no meu blog.

 

Hoje, em minha meditação matinal, saiu a Deusa Indígena americana Sedna, Deusa do Mar. Uma versão do mito explica que Sedna, uma moça jovem e muito galanteada pelos jovens do povoado onde vivia, nunca aceitava seus pretendentes – até que uma gaivota a chamou para viver no mundo das aves em troca de comida farta. E com ele casou, entretanto, sua vida se transformou em um pesadelo e passou a viver no lixo passando fome. No dia em que seu pai foi visita-la, implorou por resgate, mas o povo dos passaros não aceitaram e foi atras da fuga. Com medo, seu pai a jogou no mar, e cortou os dedos da linda moça para que soltasse do barco.Assim que caiu no mar, seus dedos viraram animais marinhos, por isso sua conexão com focas, baleias e golfinhos.

Ela tem uma a força da vida e da morte, na qual a cada vez que encerramos um ciclo temos a chance de nascer em outro ciclo.Muitas vezes, culpamos outras pessoas por nossas adversidades e esquecemos que temos a nos mesmo para responsabilizar cada vitoria e também cada derrota. Nesse processo, tive dias de mau humor, de raiva, tristeza e foi dentro dessa panela cheia de sentimentos confusos que eu encontrei os  ingredientes para a receita de uma nova vida.

 

 

 

POEMA SEDNA

Já fui ferida, machucada, abandonada.

Ignorada, fui deixada no silêncio de mim mesma à rever a minha atitude de vítima.

Inspirei verdades e expirei mentiras que me fizeram subir a superfície, na medida que a compreensão expandia minha consciência.

Dissipei a minha carência na comodidade que resistia em continuar criancinha.

No coração do oceano de mim mesma,

reverenciei em meio a dor, aqueles que me colocaram ali.

Afinal, foram os mesmos que fizeram que eu enxergasse que não eram culpados

pelas fantasias que criei e nos castelos que só existiam na minha mente.

Que eles não me traíram, sem que antes eu tivesse traído a mim mesma!

 

 

 

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